Revista de Ciência Elementar

Condutividade

Autor: Miguel Ferreira

Editor: Joaquim Agostinho Moreira

Um meio condutor da electricidade caracteriza-se por ter portadores de cargas que se podem mover sob a acção de um campo eléctrico aplicado. O tipo de portadores de carga depende da natureza do meio condutor. Por exemplo, nos metais, são os electrões de condução os responsáveis pelo transporte de carga eléctrica; já nas soluções electrolíticas, são os iões,resultantes da dissociação iónica do electrólito, que transportam a carga, enquanto que nos plasmas, são os electrões e iões os responsáveis pelo transporte.

Em todos os condutores, as cargas eléctricas encontram-se em movimento. Contudo, uma vez que este movimento é desordenado, não há transporte efectivo de carga eléctrica.

Para haver corrente, é necessário aplicar um campo eléctrico para orientar o movimento das cargas. Assim sendo, existe uma relação entre a densidade de corrente, \(\overrightarrow{J}\), e o campo eléctrico, \(\overrightarrow{E}\). Na maioria dos condutores metálicos, esta relação é de proporcionalidade directa:

\[\overrightarrow{J} = σ\overrightarrow{E}\]

sendo σ a conductividade eléctrica do metal.

Para descrever os fenómenos físicos que determinam a condução eléctrica, usa-se um modelo clássico, cujos pressupostos são:

  1. A rede metálica é constituida por iões que ocupam posições fixas no espaço, e um gás de electrões de condução que se move entre os iões. Os iões são considerados como objectos impenetráveis, de massa muito superior à dos electrões.
  2. Os electrões de condução colidem apenas com os iões que constituem a rede metálica; entre colisões, os electrões de condução não interactuam entre si nem com os iões da rede metálica.
  3. As colisões dos electrões de condução e os iões da rede consideram-se instantâneas, mudando abruptamente a velocidade dos electrões. A direcção da velocidade dos electrões após uma colisão é completamente aleatória, não tendo relação com a velocidade antes da colisão.
  4. Em média, o intervalo de tempo entre duas colisões sucessivas é constante - tempo de percurso médio τ - e a probabilidade por unidade de tempo de ocorrer uma colisão é o inverso de τ.

Suponhamos que o metal é formado por um único elemento, de massa atómica Α. Cada átomo do elemento contribui com z electrões para a condução. Se a densidade do metal for ρ, o número de electrões de condução por unidade de volume, também designado por densidade de electrões de condução, é dado por:

Admitamos que os electrões de condução têm velocidade média <\(\overrightarrow{v}\)>. A quantidade de carga eléctrica que atravessa a secção recta do condutor por unidade de tempo e de área é a densidade de corrente eléctrica, que é escrita da seguinte forma:

sendo e a carga elementar.

A velocidade máxima que o electrão atinge em média entre duas colisões sucessivas pode calcular-se a partir da dinâmica clássica, em que se admite que o electrão está sujeito apenas à força eléctrica. Se \(\overrightarrow{v0}\) é a velocidade do electrão imediatamente após uma colisão, a velocidade que ele adquire num instante t, entre as duas colisões sucessivas é:

Uma vez que a primeira parcela do segundo membro da equação anterior é perfeitamente aleatória, o seu valor médio é zero. Deste modo, a velocidade média com que os electrões se deslocam é:

em que m é a massa do electrão. Considerando esta expressão para a velocidade média dos electrões, a relação entre da densidade de corrente e o campo eléctrico, admitindo linearidade, é:

donde se conclui que a condutividade eléctrica do metal é:

Com base na última equação, podemos interpretar o facto da condutividade eléctrica de um metal diminuir com o aumento da sua temperatura. De facto, o aumento de temperatura é consequência do aumento da energia interna do metal, que se traduz por uma agitação térmica com maior amplitude. Assim sendo, a probabilidade por unidade de tempo do electrão colidir com um ião da rede aumenta, pelo que τ diminui.

Apesar da sua simplicidade, este modelo não explica certos aspectos do transporte de carga em metais, por exemplo a magnetoresistência e o efeito termoeléctrico.

Figura 1 Modelo simplificado de um condutor metálico. As partículas maiores representam os iões da rede metálica e a cheio pode ver-se uma possível trajectória descrita por um electrão de condução. Em pormenor estão representadas a tracejado as possíveis trajectórias que o electrão pode tomar após uma colisão com um ião da rede metálica.