Revista de Ciência Elementar

Geoparque Açores
Geoparque Mundial da Unesco | Um laboratório natural de geodiversidade vulcânica

Arquipélago dos Açores

O arquipélago dos Açores, com 2324 km2, é constituído por nove ilhas e alguns ilhéus, localizado em pleno Oceano Atlântico Norte a 1815 km de Portugal Continental e a 2625 km do Canadá (figura 1). As ilhas são divididas em três grupos geográficos (figura 2): Grupo Ocidental (Corvo e Flores), Grupo Central (Faial, Pico, São Jorge, Graciosa e Terceira) e Grupo Oriental (São Miguel e Santa Maria), dispostos segundo um alinhamento ONO-ESE com 600 km de extensão, do Corvo a Santa Maria e ocupam a Junção Tripla dos Açores, que corresponde à zona de interação entre as placas tectónicas Euroasiática, Norte Americana e Africana (ou Núbia).

Figura 1. Localização do arquipélago dos Açores.

Figura 2. Localização do arquipélago dos Açores.

Juntamente com os arquipélagos da Madeira, Canárias e Cabo Verde constituem a Macaronésia, uma importante região biogeográfica do Atlântico Norte, cuja designação significa “ilhas afortunadas”.


Açores: Ilhas de Geodiversidade

Todas as ilhas dos Açores são de natureza vulcânica. A primeira ilha a formar-se foi Santa Maria e a mais jovem é o Pico (tabela 1).

Tabela 1. Idades máximas inferidas para cada ilha do arquipélago.

paisagem do arquipélago dos Açores, apesar da sua reduzida dimensão territorial, exibe um vasto conjunto de formas, rochas e estruturas ímpares de elevado interesse científico, pedagógico e turístico, que derivam, entre outros fatores, da natureza dos magmas, do tipo de erupção que as originou, da sua dinâmica e da posterior atuação dos agentes externos. A geodiversidade dos Açores retrata, ainda, elementos intimamente ligados à dinâmica do planeta Terra e, em especial, ao vulcanismo e à geodinâmica singular desta região do Globo, constituindo um laboratório natural de geodiversidade vulcânica.

 

 

Na região, estão identificados 27 sistemas vulcânicos principais: 16 vulcões poligenéticos (na sua maioria grandes vulcões centrais siliciosos, com caldeira de subsidência) e 11 sistemas fissurais basálticos (segundo extensas cordilheiras ou plataformas vulcânicas). Destes, 9 vulcões poligenéticos e 7 sistemas fissurais basálticos são considerados ativos, embora atualmente adormecidos e localizam-se nas ilhas do Grupo Central, em São Miguel e no Banco D. João de Castro. Ao largo das ilhas existem diversas cristas vulcânicas submarinas ativas, como o Banco do Mónaco (a sul de São Miguel) ou o Banco Princesa Alice (a sudoeste do Faial). Existem cerca de 1750 vulcões monogenéticos nos Açores, quer nos flancos e dentro das caldeiras dos vulcões poligenéticos, quer nos sistemas fissurais basálticos. Estes pequenos vulcões incluem cones de escórias, domos e coulées traquíticos, cones e anéis de tufos, maars e fissuras eruptivas, que frequentemente definem alinhamentos vulcano-tectónicos locais ou regionais.

 

 

Desde o povoamento, a meados do século XV, estão documentadas 26 erupções vulcânicas na região dos Açores, 12 subaéreas (nas ilhas de São Miguel, Terceira, São Jorge, Pico e Faial) e 14 submarinas. Os últimos eventos eruptivos mais importantes foram de natureza submarina e basáltica s.l., e ocorreram nos Capelinhos, na ilha do Faial, em 1957/58 e a cerca de 8,5 km para NO da Ponta da Serreta, ao largo da ilha Terceira, em 1998/2000.

 

 

Santa Maria: o Berço Geológico dos Açores

Santa Maria emergiu há cerca de 8 a 10 milhões de anos, na atual Baía dos Cabrestantes, onde “residem” as rochas mais antigas dos Açores. Na ilha está representada a complexa evolução geológica e variações relativas do nível do mar do Atlântico Norte.

Sem vulcanismo ativo, inclui diversos complexos vulcânicos, na sua maioria de rochas basálticas s.l. e distingue-se das restantes ilhas por apresentar: i) afloramentos de escoadas lávicas submarinas (lavas em almofada ou pillow lavas); ii) rochas sedimentares consolidadas e, iii) notável conteúdo fossilífero.

São Miguel: Ilha de Caldeiras, Vulcões e Lagoas

Na ilha identificam-se quatro grandes edifícios vulcânicos poligenéticos, siliciosos e com caldeira (Povoação, Furnas, Sete Cidades e Fogo) e duas áreas de vulcanismo basáltico fissural (o complexo vulcânico do Nordeste, o mais antigo da ilha, e o complexo vulcânico dos Picos, o mais recente). Cerca de 500 vulcões monogenéticos, 35 lagoas, águas minerais e termais e fumarolas, completam a paleta vulcânica da ilha.

Terceira: um Mar de Lava densa e viscosa

A Terceira é constituída por quatro grandes edifícios vulcânicos com caldeira (Cinco Picos, Guilherme Moniz, Santa Bárbara e Pico Alto) e uma zona de vulcanismo basáltico fissural que ocupa as zonas central e sudeste da ilha.

Predominam materiais efusivos de natureza ácida e siliciosa, sob a forma de domos e espessas escoadas (coulées), frequentemente com níveis de obsidiana. A 63 km para sudeste da Terceira localiza-se o Banco D. João de Castro, um vulcão central submarino, com campo fumarólico e que constituiu uma ilha efémera em 1720.

Graciosa: Vulcões e Homem em Harmonia

É a ilha que apresenta menor altitude, com 405 metros, e morfologia pouco acidentada. A Graciosa possui o mais pequeno vulcão poligenético dos Açores (o vulcão da Caldeira), que ocupa a sua metade sudeste. A zona noroeste da ilha, por seu turno, é dominada por 32 cones de escórias basálticas e escoadas lávicas associadas. O vulcanismo secundário manifesta-se principalmente no campo fumarólico existente no interior da Furna do Enxofre, uma cavidade vulcânica ímpar nos Açores.

Figura 3. Geodiversidade dos Açores.

São Jorge: Cordilheira de Vulcões

Distingue-se pelo seu vulcanismo basáltico s.l., por não possuir um grande edifício vulcânico central e apresentarse como uma extensa cordilheira vulcânica (controlada pela tectónica regional), constituída por cerca de 350 cones (na sua maioria cones de escórias) e escoadas lávicas basálticas associadas.

São de realçar as muitas fajãs, detríticas e lávicas, existentes na base das arribas.

Pico: o Bom Gigante

A ilha mais jovem do arquipélago, exclusivamente formada por vulcanismo de natureza basáltica s.l., possui três complexos: o estratovulcão da Montanha, o vulcão em escudo do Topo-Lajes e a cordilheira vulcânica do Planalto da Achada (com 30 km de comprimento e cerca de 190 cones de escórias, de spatter e fissuras eruptivas). A paisagem da Montanha do Pico, predominantemente de cor negra, inclui os característicos extensos campos de lava pahoehoe (os lajidos) e diversas cavidades vulcânicas.

Faial: Onde Vulcões e Oceano se Digladiam

O Faial apresenta dois edifícios vulcânicos centrais (o Vulcão da Ribeirinha e o Vulcão da Caldeira) e duas zonas de vulcanismo basáltico fissural (a Zona Basáltica da Horta e a Península do Capelo).

O vulcão poligenético da Caldeira domina a parte central da ilha e caracteriza-se por erupções explosivas de natureza traquítica s.l., com emissão abundante de pedra pomes. No topo existe uma caldeira formada há cerca de 10 mil anos, com 2 km de diâmetro e 470 m de profundidade.

A metade oriental da ilha apresenta uma importante estrutura tectónica (o Graben de Pedro Miguel), com falhas ativas de orientação geral ONO-ESE, que modelam a paisagem.

Flores: Ilha de Água e Vulcões

A característica geológica marcante da ilha é a presença de água e de diversas crateras de explosão associadas a erupções hidromagmáticas responsáveis pela formação de maars (como a Lagoa Funda, a Lagoa Comprida e a Lagoa Seca) e anéis de tufos (como a Caldeira Branca).

As importantes bacias hidrográficas e a presença de diversos cones vulcânicos antigos modelam a paisagem, marcada por relevos residuais como chaminés vulcânicas e de filões. No litoral são várias as grutas de erosão e as exposições de disjunções prismáticas e esferoidais em escoadas lávicas. A Rocha dos Bordões constitui um exuberante exemplar de uma disjunção prismática numa escoada lávica mugearítica, com cerca de 570.000 anos.

Corvo: a Ilha-Vulcão

O Corvo apresenta, apesar da sua reduzida dimensão, uma assinalável diversidade de rochas, que inclui basaltos, traquitos, pedra-pomes, escórias, ignimbritos, etc. A ilha corresponde a um estratovulcão com uma caldeira no topo (o Caldeirão), com diâmetro médio de 2,1 km, ocupada por uma lagoa. Possui vários cones secundários nos flancos (como é o caso da Cova Vermelha) e no interior da caldeira (como o Montinho do Queijo).

Devido à erosão marinha, a natureza dos seus produtos vulcânicos e ao facto de não apresentar atividade vulcânica recente (nos últimos 10.000 anos), o litoral da ilha apresenta-se muito escarpado, excetuando a fajã lávica da Vila do Corvo.

Geoparque Açores: “9 ilhas, 1 geoparque”

Dada a reconhecida geodiversidade e o valor do seu património geológico, foi criado o Geoparque Açores em 2010, tornando-se Geoparque Europeu e Global em 2013 e Geoparque Mundial da UNESCO em 2015. Este alia uma estratégia de geoconservação, a políticas de educação e sensibilização ambientais e à promoção de um desenvolvimento socioeconómico sustentável baseado no geoturismo.

A par do património geológico da Região, existem no arquipélago outros valores patrimoniais de referência, como é o caso da rica biodiversidade, arquitetura, cultura e etnografia. O território do Geoparque Açores integra 2 áreas de Património Mundial, 4 Reservas da Biosfera e 13 sítios RAMSAR, constituindo uma das duas regiões do Mundo com as quatro designações UNESCO, juntamente com a ilha de Jeju na Coreia do Sul.

O Geoparque Açores assenta numa rede de geossítios dispersos pelas nove ilhas e zona marinha envolvente, que garantem a representatividade da geodiversidade açoriana e a sua história geológica, com estratégias de conservação e promoção comuns. Constituiu o primeiro geoparque verdadeiramente arquipelágico, com o mote “9 ilhas – 1 geoparque”. No arquipélago estão identificados 121 geossítios, 6 dos quais com relevância internacional e 52 de relevância nacional.

Devido à natureza insular e à necessidade de assegurar a sua representatividade existem delegações do geoparque em todas as ilhas dos Açores.

Figura 4. Complexo Vulcânico dos Picos.


Referências

•Lima, E. A. & Garcia, P. 2012. Interpretar as Geopaisagens Açorianas. Coimbra University Press 15: 154-159.

•Lima, E. A., Costa, M. P., Nunes, J.C.& Porteiro, A. 2010. Vulcanismo e Paisagens Vulcânicas dos Açores: Contributo para o Geoturismo e o Projecto Geoparque Açores. In Revista Electrónica de Ciências da Terra 18. 16: 1-4

•Lima, E. A., Nunes, J. C., Costa M. P. & Machado, M. 2014. Bases para a Gestão do Património Geológico no Arquipélago dos Açores (Portugal). In Revista da Gestão Costeira Integrada, 12: 301-19.

•Nunes, J.C., Lima, E. & Medeiros, S., 2007. Os Açores, Ilhas de Geodiversidade, O contributo da Ilha de Santa Maria. Açoreana supl 5: 74-111

•Nunes, J.C., Lima, E.A., Ponte, D., Costa, M.P. & Castro, R., 2011. Azores Geopark Application. 50 p.. Azores Geopark, Horta, Portugal. aqui

•Viveiros, C., Lima, E.A., Nunes, J.C., Costa, M.P., Machado, M.& Medeiros, S. 2012-2013. Geodiversidades. Jornal Açoriano Oriental.

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