A origem da cromatografia remonta ao início do século XX, sendo atribuída ao botânico Mikhael Tswett, que utilizou a técnica para separar pigmentos vegetais, como as clorofilas1.

Desde então, evoluiu de um método simples de laboratório para uma das ferramentas analíticas mais poderosas da ciência moderna. Através dela, é possível identificar (análise qualitativa) e medir (análise quantitativa) substâncias em concentrações extremamente baixas, sendo indispensável em áreas que vão da medicina forense ao controlo de qualidade industrial.


Princípios básicos: o jogo das duas fases.

Para compreender a cromatografia, deve-se imaginar um sistema composto por duas fases:

Fase estacionária: um material que permanece fixo (pode ser um sólido ou um líquido retido num suporte).

Fase móvel: um fluido (líquido ou gás) que transporta a mistura a separar através da fase estacionária2.

A separação ocorre porque cada componente da mistura interage de forma diferente com estas duas fases3. As moléculas que têm maior “afinidade” pela fase estacionária movem-se mais lentamente, enquanto as que preferem a fase móvel avançam mais depressa4. Esta diferença de velocidade é o que permite a separação física dos componentes ao longo do tempo ou do espaço.

A FIGURA 1 representa o processo de forma simplificada: 1.º, a mistura é inserida no sistema; 2.º, a fase móvel transporta as moléculas que estabelecem um equilíbrio com a fase estacionária; 3.º e 4.º, sucessivas etapas de equilíbrio separam as moléculas consoante a sua afinidade; 5.º, o gráfico (cromatograma) mostra o sinal do detetor com a sequência de saída das moléculas.


FIGURA 1. Separação de três moléculas numa coluna cromatográfica.

Classificação e mecanismos (clarificação técnica).

Para evitar confusões comuns, é importante distinguir a geometria do sistema do mecanismo químico de interação5:

Quanto à geometria e fase móvel (TABELA 1):



TABELA 1. Classificação da cromatografia segundo a fase móvel e a geometria do sistema.

*TLC - do inglês Thin Layer Chromatography; HPLC – do inglês High Pressure Liquid Cromatography.


Cromatografia planar: realizada em superfícies planas, como papel ou placas de sílica (Cromatografia em Camada Fina).

Cromatografia em coluna: a fase estacionária está contida dentro de um tubo (coluna). Dependendo da fase móvel, divide-se em:

Cromatografia líquida (LC, do inglês Liquid Cromatography): usa solventes líquidos.

Cromatografia gasosa (GC, do inglês Gas Cromatography): usa gases inertes (ideal para substâncias voláteis).


A FIGURA 2 apresenta exemplos visuais dos materiais usados para as geometrias usadas.


FIGURA 2. Material utilizado em cromatografia planar, como papel (A) e placa revestida de sílica (B), ou tubular, como coluna aberta de vidro (C) e coluna metálica (D).

Quanto ao mecanismo de separação (o processo molecular), independentemente de ser em coluna ou planar, a separação pode ocorrer por:

Afinidade: baseada em interações biológicas específicas (ex: anticorpo-antigénio).

Adsorção: o analito adere à superfície da fase estacionária sólida4, 5, 6.

Exclusão molecular: as moléculas são separadas pelo seu tamanho, como um peneiro.

Troca iónica: baseada na atração entre cargas elétricas opostas.

Partição: o analito distribui-se entre a fase móvel e uma película líquida na fase estacionária (baseado na solubilidade)5, 6.

A FIGURA 3 apresenta essa classificação de forma simplificada.


FIGURA 3. Classificação dos tipos de cromatografia em função do solvente, da geometria e composição da fase estacionária.

Tempo de retenção (tR): o tempo que uma molécula demora a atravessar o sistema (correr pela coluna ou pela placa). É característico de cada substância (identidade).

Área do pico ou da mancha: é proporcional à quantidade de substância presente (quantidade).

Resolução (Rs): mede quão bem dois picos ou manchas estão separados. Uma boa resolução é crítica para garantir que um contaminante não está “escondido” sob o pico ou mancha de outro componente.

A FIGURA 4 apresenta um cromatograma feito em coluna, com picos bem separados e em destaque um pico com a área em azul para exemplificar. Também apresenta uma imagem de TLC, com manchas sobrepostas à esquerda, amarela e azul, e as arroxeadas - uma separada e outras que se arrastam com grande afinidade com a placa, e a última alaranjada com boa resolução.


FIGURA 4. Exemplo de um cromatograma com a separação de várias moléculas, exemplificado pelas moléculas A e B, obtido por HPLC (esquerda) e TLC (direita). Os picos do cromatograma são analisados por tempo de retenção (tR, minutos), área e resolução (Rs) em azul.

Aplicações práticas e dados reais.

Autenticidade e aroma em vinhos.

Na vitivinicultura, a cromatografia é usada para definir o perfil sensorial7.

Estudos reais com vinhos da casta Aragonez utilizam a cromatografia gasosa (GC) para identificar picos de moléculas como a β-damascenona (aroma floral/frutado)8. Além disso, a técnica de HPLC permite identificar até 20 antocianinas diferentes9. Um cromatograma real de um vinho autêntico funciona como uma “impressão digital” (FIGURA 5); qualquer alteração nestes picos pode indicar a fraude por mistura com uvas de menor qualidade10.


FIGURA 5. Perfil de antocianinas utilizado como “impressão digital” para garantir a autenticidade varietal e detetar fraudes. Adaptado de Garcia-Beneytez e colaboradores (2003).

Segurança alimentar: contaminantes e toxinas.

A legislação da União Europeia (UE) é rigorosa quanto a contaminantes11. A monitorização de segurança alimentar assenta na capacidade da cromatografia de detetar “vestígios” (quantidades ínfimas). Exemplos reais incluem:

PFAS (poluentes eternos): a cromatografia líquida permite detetar estes compostos químicos em águas e alimentos.

Alcaloides pirrolizidínicos: toxinas naturais em chás ou mel10. No cromatograma, a precisão da área do pico garante que estes níveis estão abaixo dos limites legais impostos pela União Europeia, protegendo a saúde pública.


Conclusão.

A cromatografia é muito mais do que um processo físico-químico; é o “sentido da visão” da química moderna sobre misturas invisíveis a olho nu. Ao clarificar os seus mecanismos e aplicar a sua precisão em contextos reais como a segurança alimentar e a vitivinicultura, transformamos a teoria numa ferramenta de proteção e conhecimento. Separar é, de facto, o primeiro passo para conhecer a fundo o mundo que nos rodeia.


Agradecimentos.

Este trabalho foi realizado no âmbito do projeto INSTREAM (https://doi. org/10.54499/2023.13656.PEX) e do financiamento estratégico e programático para o centro de investigação Centro de Engenharia Química e Recursos Renováveis para a Sustentabilidade (CERES) (https://doi.org/10.54499/UID/00102/2025; https://doi.org/10.54499/ UID/PRR/00102/2025) concedido pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, em Portugal.