Determinação da acidez titulável de uma bebida sustentável: kombucha
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- DQB/ ECT/ U. Évora | Laboratório HERCULES / IN2PAST
Referência Galacho, C., (2026) Determinação da acidez titulável de uma bebida sustentável: kombucha, Rev. Ciência Elem., V14(2):014
DOI http://doi.org/10.24927/rce2026.014
Palavras-chave
Resumo
Ao longo dos últimos anos a kombucha tem vindo a ganhar popularidade devido à crescente procura por estilos de vida mais saudáveis e à preferência por alimentos naturais e funcionais. Dado o aumento de popularidade da kombucha e em consonância com as atuais tendências de consumo de bebidas funcionais, o artigo apresentado propõe a determinação da acidez titulável da kombucha como um trabalho prático laboratorial, TPL, para unidade curricular Técnicas Laboratoriais 1, TL1, do 1.º semestre do 1.º ano das Licenciaturas em Química, Bioquímica, Biotecnologia e Biologia Humana da Universidade de Évora. Este trabalho pode também ser realizado por estudantes do Ensino Secundário do Curso científico-humanístico de Ciências e Tecnologias, que frequentem a disciplina de Física e Química A. Os principais objetivos são promover a aprendizagem de conceitos e desenvolver competências relativos a métodos volumétricos de análise, nomeadamente, titulações ácido-base enquanto técnicas basilares em Química Laboratorial e o traçado de gráficos utilizando uma folha de cálculo do tipo Microsoft Office Excel. Em sentido mais lato, pretende-se introduzir os estudantes na temática da Química Verde e promover a reflexão e ação no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, conforme o preconizado na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, ONU. Neste artigo apresenta-se ainda um estudo sobre a avaliação da perceção dos estudantes da unidade curricular Técnicas Laboratoriais 1 quanto à importância do trabalho prático laboratorial. Os resultados obtidos permitem concluir que a grande maioria dos estudantes reconhece a importância dos métodos laboratoriais na determinação do teor de acidez titulável de uma amostra de kombucha. Os estudantes revelam ainda ter a perceção de que a realização do TPL contribui para a consciencialização dos efeitos benéficos e adversos do consumo de bebidas funcionais e para o aumento do conhecimento dos ODS da Agenda 2030 da ONU.
A kombucha é uma bebida funcional obtida a partir da fermentação de chá e açúcar, utilizando uma cultura simbiótica de bactérias e leveduras, conhecida como SCOBY (do inglês Synbiotic Colony of Bacteria and Yeasts). Apesar de ser uma bebida milenar, a kombucha tem vindo a ganhar popularidade, um pouco por todo o mundo, ao longo dos últimos anos.
Embora não existam dados oficiais sobre o consumo de kombucha em Portugal, o mercado tem demonstrado crescimento e dinamismo com a introdução de novas marcas como a Kombucha Lidl1, já em 2025, a Lipton2 da gigante Unilever, a marca própria do Minipreço3 e a SõSu4, em 2024. Estas vieram juntar-se a marcas portuguesas já estabelecidas, como Captain Kombucha5, Aquela Kombucha6, Pleno7, Continente Bio8, Pingo Doce9, entre outras.
De acordo com o relatório global de análise do tamanho, quota e tendências do mercado de Kombucha – Visão geral do setor e previsão para 203110 o tamanho do mercado global de kombucha foi avaliado em 19,76 mil milhões de dólares em 2023 e deverá atingir os 99,25 mil milhões de dólares até 2031, com uma taxa de crescimento anual composta CAGR (CAGR, do inglês Compound Annual Growth Rate) de 22,35% durante o período de previsão. Na FIGURA 1 é possível observar a evolução e a previsão de crescimento do mercado da kombucha, por região geográfica.
A popularidade da kombucha deve-se à crescente procura de estilos de vida mais saudáveis e à preferência por alimentos naturais e funcionais. Além de ser amplamente divulgada como uma opção benéfica para a saúde, o interesse por esta bebida ancestral tem sido impulsionado por conceitos como naturalidade e sustentabilidade, cada vez mais valorizados pela sociedade civil, em particular, pela geração millennial.
Acredita-se que o chá fermentado tenha sido utilizado pela primeira vez na Ásia Oriental pelos seus benefícios terapêuticos em 220 a.C. No entanto pensa-se que teve origem no nordeste da China, Manchúria, onde terá sido adotado durante a Dinastia Tsin (Ling Chi) devido às suas propriedades desintoxicantes e energizantes12. Em 414 d.C., o médico coreano de seu nome Kombu terá levado o chá fermentado para o Japão para curar os problemas digestivos do Imperador Inkyo surgindo assim o nome “Kombu cha” ou “chá do Kombu”11, 12, 13, 14, 15.
No início do século XX, com a expansão das rotas comerciais, a kombucha chegou ao Ocidente vinda da Mongólia, sendo inicialmente introduzida na Rússia, onde era conhecida como “Kambucha”, posteriormente foi difundida pelos países de leste. Durante a Segunda Guerra Mundial chegou à Alemanha sob o nome de “Kombuchaschwamm”, mas durante este período a escassez de chá e açúcar tornaram a sua produção inviável, levando à diminuição do seu consumo. No pós-guerra, durante a década de 1950, a kombucha foi introduzida em França e, consequentemente, no Norte de África, então sob domínio francês, onde se popularizou. Em Itália, a bebida, apelidada de “Funkochinese”, despertou grande entusiasmo, atingindo, nesta época, o auge de popularidade na sociedade italiana.
Na década de 1960, investigadores suíços relataram que o consumo de kombucha oferecia benefícios comparáveis aos do iogurte, o que contribuiu para o aumento da sua popularidade11, 12, 13, 14, 15.
Já na década de 1990, a kombucha tornou-se significativamente mais popular no mercado norte-americano. Sandor Katz, um dos principais especialistas em fermentação e autor do livro The Art of Fermentation (A Arte da Fermentação), atribuiu esse crescimento ao facto de muitos consumidores acreditarem que a bebida possuía propriedades benéficas para a saúde, incluindo condições médicas graves. Katz relatou que experimentou kombucha pela primeira vez em 1994, quando um amigo com SIDA começou a prepará-la e a consumi-la como parte integrante da sua rotina de saúde. A bebida era frequentemente promovida como um estimulante do sistema imunológico, embora os seus alegados benefícios fossem mais amplos e variados11.
A divulgação de artigos sobre o consumo de kombucha e os seus potenciais benefícios para a saúde em meios de comunicação como o New York Times e o Miami Herald impulsionou, de forma significativa, o interesse por esta bebida, não apenas nos Estados Unidos, mas também a nível global.
Ainda no que diz respeito à popularidade da kombucha, e a título de curiosidade, refira-se que uma pesquisa realizada no motor de busca Google em 12/03/2025, utilizando o termo “kombucha” em português e restringindo a região a Portugal, produziu 90.000 resultados. Por outro lado, a mesma pesquisa sem limitações de idioma ou região gerou 83.800.000 resultados, o que representa 5,2% do total obtido para o nome “Cristiano Ronaldo” nas mesmas condições.
Tal como foi referido anteriormente a kombucha é uma bebida obtida a partir da fermentação de chá e açúcar, utilizando uma cultura simbiótica de bactérias e leveduras. As leveduras e as bactérias utilizam os substratos das suas atividades metabólicas de forma complementar. As leveduras metabolizam a sacarose (açúcar) da base de chá em frutose e glucose pela ação da enzima invertase, e produzem etanol e dióxido de carbono. As bactérias acéticas convertem a glucose em ácido glucónico e a frutose em ácido acético. A presença deste ácido estimula as leveduras a produzir etanol que depois é utilizado pelas bactérias acéticas para o seu crescimento e para a produção de mais ácido acético15, 16, 17.
Como resultado da atividade destes microrganismos são produzidos, durante o processo de fermentação, açúcares, polifenóis, etanol, vitaminas solúveis em água e outros micronutrientes13, 14, 16.
Tradicionalmente a kombucha é preparada a partir de chá preto, mas podem ser utilizados outros tipos de chá como, por exemplo, o verde, o Oolong e o branco14 ou, inclusive, misturas dos mesmos. O modo de preparação, o tipo de chá e de SCOBY assim como as proporções de chá, açúcar e SCOBY variam consoante o produtor. Na generalidade o procedimento base consiste na preparação de uma infusão de chá a 0.5% (m/m), à qual é adicionado12, 15, a quente, o açúcar 5 a 15% (m/m). Após arrefecimento é adicionado o SCOBY 10 a 20 % (m/m). A mistura resultante é incubada, sem agitação, à temperatura ambiente (20 a 22°C) durante 7 a 10 dias, ou mesmo por um período superior, dependendo do estado do inóculo e/ou do resultado pretendido. A bebida resultante deverá ser filtrada para remover os restos de celulose do SCOBY e massas de microrganismos em suspensão. Deve ser conservada no frigorífico em recipientes fechados e é geralmente servida fria15.
O sabor desta bebida funcional é descrito como único, onde se combina o agridoce com uma ligeira gaseificação.
A título exemplificativo apresenta-se, na FIGURA 2, o diagrama esquemático de fabrico da kombucha da marca Aquela Kombucha18.
A kombucha contém, na sua composição, diversos ácidos orgânicos tais como acético, glucónico, glucurónico, cítrico, láctico, málico, tartárico, malónico, oxálico, succínico, pirúvico, úsnico; açúcares, nomeadamente sacarose, glucose e frutose; vitaminas B1, B2, B6, B12 e C; glicerol, aminoácidos, aminas biogénicas, purinas, pigmentos, lípidos, proteínas, algumas enzimas hidrolíticas, etanol, cafeína, dióxido de carbono, compostos fenólicos, minerais, DSL (D-saccharic acid-1,4-lactone) e outros metabolitos microbianos12, 14, 20. Na FIGURA 3 apresentam-se as fórmulas de estrutura de alguns destes compostos.
A composição e a concentração dos metabólitos da kombucha é variável dependendo da cultura inicial, das concentrações de açúcar e de chá, da temperatura e do tempo de fermentação, entre outros.
Na TABELA 113 apresenta-se, a título exemplificativo, a composição química de uma kombucha em função da concentração inicial de sacarose e do tempo de fermentação.
O ácido acético é o composto químico responsável pelo aroma e sabor avinagrado da kombucha, a concentração deste ácido tende a aumentar com o tempo de fermentação atingindo o valor máximo de 11g/L ao fim de 30 dias. O sabor agridoce do produto fermentado é o resultado da presença conjunta de ácidos orgânicos e de açúcares.
GAE: Equivalentes de ácido gálico (do inglês Gallic Acid Equivalent).
De acordo com o artigo publicado no blogue Prevenção e estilo de vida20 o consumo de kombucha tem sido associado a efeitos benéficos na saúde dos consumidores. Tal pode dever-se à presença de vitaminas do complexo B (B1, B2, B6, B12), vitamina C e probióticos.
Foi demonstrado que a kombucha possui propriedades terapêuticas e profiláticas quando consumida regularmente12, 13. Estudos indicam que apresenta efeitos antioxidantes, antibacterianos e antidiabéticos, além de contribuir para a redução do colesterol, o fortalecimento do sistema imunológico e a desintoxicação do fígado. No entanto, é importante destacar que, embora algumas dessas propriedades tenham sido comprovadas por estudos científicos experimentais, a base das evidências ainda é limitada e baseia-se, em grande parte, nos resultados obtidos em células e organismos-modelo12, 13, 14, 15.
A agência norte-americana FDA (do inglês Food and Drug Administration), responsável pela proteção da saúde humana, afirma que o consumo desta bebida é seguro para os seres humanos, não havendo evidências suficientes que comprovem a sua toxicidade ou efeitos adversos. Nesse sentido, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC do inglês Centers for Disease Control and Prevention), reforçam que um consumo diário até 120 mL não apresenta riscos para saúde humana. Este valor deve ser respeitado, dado que esta bebida pode conter um teor elevado de açúcar contribuindo para o aumento de peso, bem como, um elevado teor de acidez, prejudicial à saúde oral20.
Mas mais do que uma tendência, a Kombucha traduz-se numa bebida refrescante, agridoce e que, devido à presença de probióticos, pode apresentar alguns benefícios para a saúde. Na verdade, em países asiáticos, é até considerada um “elixir da saúde”.
Dada a crescente popularidade da kombucha e em linha com as atuais tendências de consumo de bebidas funcionais, o artigo apresentado propõe a determinação da acidez titulável da kombucha como um trabalho prático laboratorial para unidade curricular Técnicas Laboratoriais 1 TL1, do 1.º semestre do 1.º ano das Licenciaturas em Química, Bioquímica, Biotecnologia e Biologia Humana da Universidade de Évora.
Atividades laboratoriais que envolvem alimentos17, nomeadamente bebidas refrigerantes21, são amplamente valorizadas pelos estudantes22. Além disso uma abordagem holística, que interligue a Química com Sociedade, Saúde e Sustentabilidade, é igualmente bem recebida pelos estudantes, ao trazer para o laboratório temas relevantes em debate na sociedade.
O artigo encontra-se estruturado em duas partes principais: a primeira descreve o contexto geral do trabalho prático laboratorial e a segunda apresenta um estudo sobre a avaliação da perceção dos estudantes da unidade curricular TL1 quanto à importância do TPL.
Descrição global do trabalho prático laboratorial.
O trabalho prático laboratorial, TPL, apresentado possibilita aos estudantes de 1.º ciclo das Licenciaturas em Química e afins determinar a acidez titulável da kombucha enquanto os sensibiliza para a existência desta bebida funcional que pode ser uma alternativa mais saudável aos refrigerantes.
Os objetivos principais são promover a aprendizagem de conceitos e desenvolver competências relativos a métodos volumétricos de análise, nomeadamente, titulações ácido-base enquanto técnicas basilares em Química Laboratorial e o traçado de gráficos utilizando uma folha de cálculo do tipo Microsoft Office Excel. Em sentido mais lato, pretende-se introduzir os estudantes na temática da Química Verde e promover a reflexão e ação no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, propostos na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, ONU.
Este trabalho foi planeado para a unidade curricular Técnicas Laboratoriais I, TL1, do 1.º semestre das licenciaturas em Química, Bioquímica, Biotecnologia e Biologia Humana da Universidade de Évora. Tem a duração total de 180 minutos, dos quais cerca de 120 são destinados à realização do procedimento experimental, efetuado por grupos de três estudantes. O número ideal de grupos por turma é de 4 (12 estudantes), podendo ir até aos 5 (15 estudantes) dependendo das dimensões do laboratório. O trabalho proposto, apesar de ter sido para estudantes universitários do 1.º semestre do 1.º ano, pode também ser realizado por estudantes do Ensino Secundário do Curso científico-humanístico de Ciências e Tecnologias, que frequentem a disciplina de Física e Química A. Permite a abordagem de diferentes conteúdos programáticos, nomeadamente “Soluções, coloides e suspensões”, “Reações ácido-base“ e “Química Verde” constituindo-se como uma excelente opção para a atividade laboratorial AL 2.2. Titulação ácido-base23.
Protocolo experimental.
1. Amostra a analisar
Amostra de kombucha da marca Aquela Kombucha, saber tradicional (previamente desgaseificada por agitação mecânica, à temperatura ambiente).
2. Reagentes e Solventes
Hidrogenoflalato de potássio (PanReac, ApllChem, puro) previamente seco na estufa, a uma temperatura de 50-60°C, e arrefecido em exsicador contendo sílica gel não hidratada.
Solução aquosa de hidróxido de sódio (hidróxido de sódio em pérolas, Labsolve) de concentração aproximada 0,1 moldm-3.
Solução de fenolftaleína (Fluka Chemika > 99%) em Etanol (Honeywell Riedel-de Haen, ≥ 99,8%) e Água destilada, concentração 1% (m/V).
3. Equipamento
Balança semi-analítica (Mettler Toledo, PB 303).
Medidor de pH (Micro PH Metro 2001 Crison) com elétrodo combinado de vidro.
4. Procedimento experimental
4.1. Padronização da solução de hidróxido de sódio
4.1.1. Uso de indicadores
4.1.1.1. Passar uma bureta de 25 mL por solução de hidróxido de sódio e descartar a solução de lavagem. Fixar a bureta no suporte metálico e encher com a solução de hidróxido de sódio. Retirar o funil e acertar o menisco no zero.
4.1.1.2. Pesar rigorosamente, com o auxílio de uma espátula, duas amostras, de aproximadamente 0,200g cada, de hidrogenoftalato de potássio previamente seco na estufa e arrefecido em exsicador, para 2 erlenmeyers de 250 cm3. Registar os valores.
4.1.1.3. Adicionar 75 mL de água destilada medidos com proveta e dissolver completamente.
4.1.1.4. Adicionar 3 gotas de fenolftaleína a cada amostra.
4.1.1.5. Titular cada amostra de hidrogenoftalato de potássio até ao ponto final e registar o volume de solução de hidróxido de sódio gasto em cada ensaio.
Nota
O ponto final destas titulações considera-se atingido quando a cor rósea persiste na solução por 30 s ou mais, depois de agitar.
4.2. Determinação da acidez titulável de uma amostra de kombucha da marca Aquela Kombucha.
4.2.1. Titulação potenciométrica17, 24.
4.2.1.1. Proceder à calibração do medidor de pH.
4.2.1.2.. Medir, com pipeta volumétrica, 20,0 mL de amostra de kombucha Aquela Kombucha para um copo de 100 mL. Introduzir o elétrodo de vidro.
4.2.1.3.. Colocar o copo por baixo da bureta e titular com a solução de hidróxido de sódio de concentração aproximada 0,1 moldm-3, adicionando 0,5 mL de cada vez. Agitar após cada adição.
4.2.1.4.. Registar os valores do volume de solução titulante e de pH e elaborar, em simultâneo, o gráfico “pH versus VNaOH/mL”.
4.2.1.5.. Terminar a titulação quando o patamar da zona básica estiver bem definido.
4.2.2. Uso de indicadores
4.2.2.1.Medir, com pipeta volumétrica, 20,0 mL de amostra de kombucha da marca Aquela Kombucha para um erlenmeyer de 250 mL.
4.2.2.2. Adicionar 3 gotas de fenolftaleína.
4.2.2.3. Titular a amostra com solução de hidróxido de sódio de concentração aproximada 0,1 moldm-3.
4.2.2.4. Registar os valores.
4.2.2.5. Repetir o procedimento até a obtenção de 2 valores concordantes.
5. Tratamento de resultados.
5.1. Padronização da solução de hidróxido de sódio.
5.1.1. Escrever a equação química que traduz a reação entre o hidróxido de sódio e o hidrogenoftalato de potássio.
5.1.2. Calcular a concentração rigorosa da solução de hidróxido de sódio em moldm-3.
5.2. Determinação da acidez total de uma amostra de kombucha da marca Aquela Kombucha
5.2.1. Escrever a equação química que traduz a reação entre o hidróxido de sódio e o ácido acético.
5.2.2. Elaborar, para a titulação potenciométrica da acidez titulável da kombucha da marca Aquela Kombucha, as curvas de titulação e da 1ª derivada. Determinar o volume de titulante correspondente ao ponto de equivalência.
5.2.3. Calcular a acidez titulável da kombucha analisada, expressa em gramas de ácido acético por litro. Comparar com valores fornecidos por fontes bibliográficas fidedignas.
Resultados e discussão.
A padronização da solução de hidróxido de sódio utilizando o hidrogenoftalato de potássio, previamente seco na estufa e arrefecido em exsicador, permitiu determinar a concentração rigorosa da mesma, isto é, 0,09774 moldm-3.
Imediatamente antes da adição de solução titulante à amostra de 20,0 mL de kombucha, previamente degaseificada, foi medido o pH tendo-se registado o valor de 3,46.
A posterior titulação potenciométrica da referida amostra kombucha com a solução de hidróxido de sódio padronizada possibilitou o traçado da curva de titulação, pH versus VNaOH/mL, que se apresenta na FIGURA 4. Note-se que os estudantes obtiveram a curva de titulação em tempo real utilizando para tal um pc/tablet com folha de cálculo do tipo Microsoft Office Excel ou uma máquina de calcular gráfica.
O subsequente traçado do gráfico da primeira derivada da curva de titulação, ΔpH/ΔV versus VNaOH/mL, apresentado na FIGURA 5, permitiu a determinação rigorosa do volume de solução titulante necessário para se atingir o ponto final da titulação: 4,25 mL.
A amostra de kombucha analisada apresenta uma acidez titulável, expressa em gramas de ácido acético por litro, de 1,25 g/L. Este valor é da mesma ordem de grandeza do obtido por17 após 10 dias de fermentação, 2,22 g/L.
A etapa seguinte do procedimento experimental consistiu na titulação de amostras de 20,0 mL de kombucha, previamente desgaseificadas, com a solução de hidróxido de sódio padronizada, utilizando a fenolftaleína como indicador ácido-base. Os valores dos volumes de solução titulante, necessários para atingir o ponto final da titulação, são menos rigorosos e precisos (V1= 4,8 mL, V2=5,0 mL, V3= 4,7 mL, V4= 5,2 mL, V5= 4,9 mL) devido à incerteza na observação da mudança de cor do indicador. Tal facto era expectável dado que a amostra de kombucha apresenta uma coloração amarelo-claro.
É importante a realização dos dois procedimentos experimentais para que os estudantes se apercebam das vantagens e limitações de cada de um.
O TPL apresentado pretende ainda contribuir para a disseminação, reflexão e ação no âmbito dos ODS. Em 2016 entrou em vigor a resolução da ONU intitulada “Transformar o nosso mundo: Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável”, designada, usualmente, por Agenda 2030, e que tem por base 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável desdobrados em 169 metas. É uma agenda ambiciosa que aborda as três dimensões do desenvolvimento sustentável: social, económica e ambiental, bem como importantes questões relacionadas com a paz, a justiça e instituições eficazes. Nas palavras do então secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, os 17 ODS são “uma lista das coisas a fazer em nome dos povos e do planeta”. Transformar esta visão em realidade é essencialmente da responsabilidade dos governos dos países, pelo que a Agenda 2030 pressupõe a integração dos ODS nas políticas, processos e ações desenvolvidas nos planos nacional, regional e global, e exige novas parcerias e solidariedade internacional. Nesse sentido a integração dos ODS em trabalhos práticos laboratoriais demonstra que os temas lecionados estão interligados com desafios globais preconizados na Agenda 203025.
Na TABELA 2 apresentam-se os principais ODS e as metas visadas com o TPL21, 22.
Adicionalmente este TPL possibilita a integração do ensino da Química no âmbito do paradigma da Química Verde, QV1, nomeadamente, nos 12 Princípios da Química Verde3, PVQ, como se demonstra na TABELA 3.
Estudo de avaliação da perceção dos estudantes sobre a importância do TPL.
Na segunda parte deste artigo apresenta-se um estudo que pretendeu avaliar o modo como os estudantes que realizaram o TPL percecionam a importância do mesmo. Com esse objetivo foi desenvolvido um questionário para recolha de dados através dos quais se pretende dar resposta às seguintes Questões de investigação:
- Que perceção têm os estudantes sobre a relevância do TPL realizado na abordagem de temas que evidenciem a Interligação Química-Sociedade;
- Que perceção têm os estudantes sobre a influência do TPL na adoção de comportamentos que contribuam para a Saúde e Bem-Estar; e
- Que perceção têm os estudantes sobre a influência do TPL na adoção de práticas que promovam a Sustentabilidade.
Material e métodos.
Considerando a natureza das questões de investigação, foi selecionado como instrumento de recolha de dados o inquérito por questionário, tendo-se seguido na sua elaboração e validação os procedimentos recomendados por Bell28.
O Questionário era constituído por três partes. Uma primeira parte, com questões de resposta curta, destinada à recolha de informações sociodemográficas que permitiram caraterizar a amostra, uma segunda com questões relativas ao conhecimento da bebida kombucha e aos hábitos de consumo de kombucha e de refrigerantes, e uma terceira parte que incluía um conjunto de afirmações, relativamente às quais os participantes deveriam dar a sua opinião, usando uma escala de Likert de quatro níveis (Concordo totalmente, Concordo, Discordo e Discordo totalmente).
Na conceção do questionário foram consideradas as perguntas apresentadas na TABELA 4, relativas ao conhecimento da kombucha e aos hábitos de consumo de kombucha e de refrigerantes e as afirmações apresentadas na TABELA 5, que se relacionam com as três áreas temáticas abordadas neste estudo, Interligação Química-Sociedade, Saúde e Bem-Estar e Sustentabilidade.
O questionário foi aplicado a uma amostra de conveniência, constituída por 76 estudantes que frequentavam a UC TL1 no ano lectivo de 2024/25.
Os participantes da amostra tinham idades compreendidas entre os 17 e os 24 anos, com um valor médio de idades de 18,6 anos, sendo 69,7% dos participantes do género feminino, 29,0% do género feminino e 1,3% de outro género.
Resultados.
Nesta seção analisam-se as respostas dadas pelos estudantes às partes II e III do questionário que pretendem avaliar, respetivamente, qual o seu grau de conhecimento relativo à bebida e os seus hábitos de consumo de kombucha e de refrigerantes, e, qual a sua perceção sobre a relevância do trabalho prático realizado na abordagem de temas que evidenciem a interligação Química-Sociedade, o seu impacto na promoção da Saúde e Bem-Estar e o contributo para a adoção de práticas sustentáveis.
Dos estudantes inquiridos 37,3% desconheciam a existência da bebida kombucha e dos 62,7% que a conheciam apenas 24,4% a haviam provado. Dos que já haviam provado a grande maioria, 61,5%, afirmou que não a consumia, 7,7% que ingeriam em média uma kombucha por mês, 15,4%, uma por semana e 7,7% bebiam kombucha com outra frequência, 7,7% não responderam a esta questão.
Quando inquiridos sobre os hábitos consumo de refrigerantes 13,3% não responderam, 4,0% afirmaram que não consumiam este tipo de bebida, 16,0% relataram um consumo médio de 1 vez por mês, enquanto a maioria, 42,7%, referiu beber em média um refrigerante por semana, a frequência de ingestão diária e bidiária é igual, correspondendo a 9,4%, por fim 5,3% dos inquiridos respondeu que consumia refrigerantes com outra frequência.
Quando perguntado aos estudantes se, considerando os benefícios da kombucha face aos dos refrigerantes, ponderavam alterar os seus hábitos de consumo 29,4% mostrou-se favorável enquanto os restantes 70,6% não tencionam alterar os referidos hábitos de consumo.
O gráfico da FIGURA 6 apresenta a frequência de respostas relativamente às afirmações incluídas no tema Interligação Química-Sociedade. A sua análise mostra que, com exceção das Afirmações A2 e A3 em que a resposta mais dada é Concordo, a resposta mais frequente às restantes afirmações incluídas neste tema é Concordo Totalmente. É de realçar o facto de a percentagem de respostas positivas (Concordo Totalmente e Concordo) ser bastante elevada em todas as afirmações, com valores que variam entre 72,3% e 100,0%. Relativamente às respostas Discordo, a percentagem é muito baixa nas afirmações A1, A2 e A3 sendo o valor máximo de 21,1% na Afirmação A4. Apenas na Afirmação A5 foi dada a resposta Discordo Totalmente com uma frequência de 6.6%.
O gráfico da FIGURA 7 apresenta a frequência de respostas relativamente às afirmações incluídas no tema Saúde e Bem Estar. A sua análise mostra que, a resposta mais frequente em todas as afirmações incluídas neste tema é Concordo. É ainda possível realçar o facto de percentagem de respostas positivas (Concordo Totalmente e Concordo) ser bastante elevada em todas as afirmações, com valores que variam entre 77,3% e 89,2%. Relativamente às respostas Discordo, a percentagem varia entre 10,8% e 22,7%. Na Afirmação A8 não se registou a resposta Discordo Totalmente sendo que nas restantes o valor máximo de 3,9% na Afirmação A7.
O gráfico da FIGURA 8 apresenta a frequência de respostas relativamente às afirmações incluídas no tema Sustentabilidade. A sua análise mostra que, a resposta mais frequente em todas as afirmações incluídas neste tema é Concordo. Podemos ainda realçar o facto de a percentagem de respostas positivas (Concordo Totalmente e Concordo) ser bastante elevada em todas as afirmações, com valores que variam entre 82,9% e 94,8%. Relativamente às respostas Discordo, a percentagem é relativamente baixa em todas as afirmações, sendo o valor máximo de 14,5% na Afirmação A13. A resposta Discordo Totalmente foi pouco significativa neste conjunto de afirmações verificando-se um máximo de 2,6% nas afirmações A13 e A16.
Discussão.
Tendo por base os resultados obtidos no tema Interligação Química-Sociedade, apresentados na secção anterior, pode concluir-se que a grande maioria dos estudantes reconhece que a realização do TPL possibilita a abordagem de temas relevantes no contexto das sociedades modernas. A utilização de uma bebida funcional, para promover a aprendizagem de métodos quantitativos de análise, estimula o interesse dos estudantes pela realização do TPL e contribui para aumentar a literacia relativa a bebida à kombucha. Uma percentagem bastante significativa de estudantes reconhece que o TPL contribui para a disseminação da informação/ conhecimento junto de amigos e familiares.
Considerando o tema Saúde e Bem Estar, os resultados mostram que a grande maioria dos estudantes reconhece que a realização do TPL contribui para adotar comportamentos que promovem a saúde e o bem-estar, designadamente nos hábitos quotidianos de consumo de bebidas funcionais tal como preconizado no ODS 3 – Saúde de Qualidade. Os estudantes reconhecem ainda que o TPL promove o hábito de consultar o rótulo de um produto alimentar, antes, durante ou após a sua ingestão.
No que se refere ao tema Sustentabilidade a grande maioria dos estudantes tem a perceção que a realização do TPL contribui para o aumento do conhecimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 e contribui para aumentar o seu grau de interesse.
Os estudantes reconhecem que a realização deste TPL onde se utilizam apenas solutos, solventes e amostras não perigosas, provenientes de fontes renováveis e que originam apenas resíduos inócuos para o meio ambiente contribui para aumentar o grau de interesse pela Química e a interligação entre Química e Sustentabilidade.
Em suma, a realização deste TPL contribui para a adoção de comportamentos que estão em linha com os ODS, envolvendo os estudantes e promovendo uma cidadania global ativa e uma maior consciencialização do papel de cada um na construção de um mundo mais seguro, mais saudável e mais sustentável.
Conclusões.
A aprendizagem da Química baseada na realização de TPL reveste-se de enorme importância, dadas as potencialidades que este apresenta enquanto promotor da aquisição de conhecimentos e do desenvolvimento de competências específicas. Contudo, o papel do TPL pode ainda ser mais abrangente se este for abordado de uma forma holística, trazendo para o laboratório temas em discussão na Sociedade, usando-o como veículo para a construção de conhecimento e desenvolvimento de competências transversais que capacitem os estudantes enquanto sujeitos ativos e interventivos na Sociedade.
Alcançar estes objetivos depende, em grande medida, da consciencialização proporcionada pela realização do TPL, impulsionadora da adoção de comportamentos que promovam a saúde e o bem-estar e de práticas que visem a sustentabilidade, em linha com os ODS da Agenda 2030.
Numa perspetiva global pode concluir-se que os estudantes consideram que o TPL realizado é relevante na abordagem de temas que evidenciem a interligação entre a Química e a Sociedade, influencia a adoção de comportamentos que contribuem para a saúde e bem-estar e promove práticas sustentáveis.
Num contexto mais abrangente, os resultados obtidos validam a abordagem holística delineada, contribuindo para a consecução do ODS 4 - Educação de Qualidade.
Agradecimentos.
A autora agradece à Aquela Kombucha, na pessoa da Maria Lima (Founder & CEO), as amostras cedidas para a realização do trabalho prático laboratorial.
Este trabalho é financiado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do Projeto Laboratório HERCULES UID/04449/2025 e do Projeto Laboratório Associado IN2PAST LA/P/0132/2020.
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