Em 1516, Pietro Martyre d’Anghera, um italiano que vivia em Espanha, publicou De Orbe Novo (O Novo Mundo)1, um relato das suas viagens na América do Sul e de outros exploradores, que é o primeiro livro a mencionar o veneno. Descreve os ataques dos indígenas contra os invasores espanhóis, atingindo homens e até cavalos, que morriam depois de ficarem paralisados. Refere que os indígenas comiam os animais que tinham caçado com flechas envenenadas sem qualquer efeito adverso para a sua saúde e que o produto era mesmo utilizado para tratar “males do estômago”.

Existem escritos de missionários, ao longo dos séculos seguintes, que indicam o grande secretismo com que os nativos envolviam a produção do Curare, associada a rituais próprios, não tendo nunca conseguido desvendar como era fabricado, pese embora muitas tentativas feitas, em diferentes regiões e abordando diferentes tribos.

Relatos detalhados do seu uso, surgiram com escritos de Sir Walter Raleigh, misto de soldado, historiador, poeta e corsário inglês, herói da batalha naval contra a “Grande Armada” de Filipe de Espanha, pelo que foi elevado a Cavaleiro por Isabel I, foi seu favorito, mas que acabou por ser decapitado, no reinado seguinte, de Jaime I. Certas partes desses relatos são consideradas confabulação, destinada a elevar o prestígio do autor, mas que, na linha geral, são tidos como verdadeiros.

Por finais do século XVI sabia-se que o veneno Curare era feito de plantas diferentes dependendo das regiões em que era produzido, sem esquecer que outras plantas eram também adicionadas, por vezes mesmo dentes de animais. Consoante os locais, o Curare era conservado em potes de barro, em cabaças, ou em canas ocas de bambu e conhecidos como pote-curare, calabash-curare e tubo-curare, mantendo a sua atividade por muito tempo.

Este conhecimento fragmentário manteve-se durante cerca de 300 anos, até às viagens do explorador Francês Charles Marie de la Condamine2 que, por meados do século XVIII, esteve 10 anos na Amazónia e conseguiu trazer para a Europa uma razoável quantidade de Curare de boa qualidade. Juntamente com três Professores da Universidade de Leyden, na Holanda, realizou uma série de interessantes experiências com amostras do produto que trouxe.

Outros investigadores, que obtiveram amostras desse mesmo produto, realizaram experiências em gatos e que levaram a concluir que, embora o animal estivesse aparentemente morto, o coração continuava a bater durante duas horas!

Aos poucos ia-se construindo um importante acervo de conhecimentos sobre o estranho veneno.


As Explorações de Alexander von Humboldt.

Este indivíduo, de nome completo, Friedrich Wilhelm Heirich Alexander, Barão de Humboldt (1773–1859), era um Prussiano de família muito rica, tendo dado origem a uma Fundação, com o mesmo nome. Os seus trabalhos sobre botânica e geografia levaram à criação da área da fitogeografia. Em associação com o cientista Francês Aimé Jacques Alexandre Goujaud Bonpland fizeram, durante cinco anos, viagens de exploração pelas Américas. Enviaram para Paris mais de 6 000 plantas recolhidas nas áreas que percorreram. Realizaram, também, importantes trabalhos de cartografia e de antropologia2.

Em 1804 von Humboldt conseguiu observar a preparação de Curare4. Aproveitando uma celebração que festejava o regresso de coletores de plantas para fabricar o Curare, durante a qual se fez abundante consumo de uma bebida alcoólica, produzida por fermentação de mandioca e sabendo os efeitos da embriaguez, foi incentivando as celebrações, mas evitando que o Feiticeiro e produtor do veneno, ficasse incapacitado.

Assim, pode recolher amostra das plantas usadas na preparação do produto e assistir à produção do veneno. A casca de ramos e de raízes era fragmentada, depois esmagada com uma pedra. À pasta resultante era adicionada água a que se seguia fervura prolongada; depois, seguia- se filtragem por um funil feito de folhas, que descreve em pormenor. Este líquido era seguidamente colocado em largas vasilhas para facilitar a evaporação e consequente concentração dos produtos extraídos da planta. Finalmente era feita uma cocção em lume brando, até se obter um líquido espesso que, contudo, não tinha consistência suficiente para aderir às pontas das setas. Era, então, adicionado o suco de uma outra planta, muito gelatinoso, que tornava o composto negro e espesso, pronto para ser.

A descrição muito pormenorizada que von Humboldta fez — e aqui apresentada muito condensada — destruiu um mito que tinha surgido com relatos anteriores de missionários e viajantes, segundo os quais os vapores libertados durante a cozedura eram mortais e que, por isso, os indígenas destacam para supervisionar esta fase da preparação as mulheres mais velhas, que morriam e eram substituídas por outras. Na realidade, os vapores libertados eram perfeitamente inócuos e durante o processo de preparação o líquido era provado pelo Feiticeiro, sem qualquer dano; além disso, as mulheres não eram admitidas na sua cubata, nem participavam em qualquer fase da preparação do veneno, que se revestia do maior secretismo e de rituais místicos.

Posteriormente foi possível identificar que as plantas base na preparação do veneno como sendo a Strychnos toxifera e Chondodendron tomentosum.


Venenos.

Os venenos exerceram sempre uma grande atração e curiosidade nas pessoas. É bem conhecida a morte do célebre pensador Sócrates (470 a.C.–399 a.C.), que foi condenado à morte por não acreditar nos Deuses Gregos e pelos seus pensamentos serem considerados perniciosos para a juventude4. Sócrates, dando um notável exemplo de dignidade e firmeza de princípios, decidiu aceitar a sentença, não se retratando, pelo que bebeu a infusão de Cicuta, que lhe foi levada por um elemento do tribunal.

O envenenamento pela Cicuta, correntemente usada na Grécia Antiga para os condenados à pena capital, produz uma morte angustiante. É um facto histórico que Sócrates, após ingerir o veneno, ficou falando com alguns discípulos presentes, durante longo tempo, como relatado por Platão na sua obra Fedão, onde refere a presença de um Funcionário do Tribunal que, com uma agulha, ia testando a perda de sensibilidade do envenenado. Na realidade, a perda de sensibilidade surge primeiro nos pés, progride pelas pernas, depois pelas coxas, até atingir o diafragma e os músculos intercostais, levando à morte por asfixia. Compreende-se que esta lenta agonia provoque uma angústia terrível a quem a ela seja submetido, sentindo-a progredir, sem nada poder fazer.

Muitos dos venenos conhecidos então eram lentos, ou extremamente dolorosos, como por exemplo a Estricnina (obtido da Strychnos nux vómica) que provoca violentos espasmos e contrações de todos os músculos do organismo, levando à morte por falha muscular.


Curare, o veneno da morte rápida e tranquila.

As observações feitas por várias pessoas acerca de animais, frequentemente macacos, caçados com o uso de zarabatanas, lançando pequenos dardos envenenados e até pessoas, atingidas deliberadamente, ou por acidente, levavam a considerar a morte pelo Curare muito rápida e tranquila, sem convulsões, ou espasmos, mantendo uma fisionomia serena, pelo que se atribuiu a este veneno a capacidade de provocar uma morte única, pelas características de serenidade que se observavam.

Nos finais do século XVIII e inícios do XIX surgiu novo interesse pelo Curare, em linha com o interesse dos Fisiologistas sobre a atuação de venenos no corpo humano. O cirurgião inglês Benjamin Brodie (1783–1862) realizou uma série de trabalhos experimentais com cães, apreciando a resposta fisiológica desses organismos a vários venenos. Em relação ao Curare2, verificou que o veneno paralisava os músculos respiratórios, mas que o coração continuava a bater durante bastante tempo. Aventou que, bombeando ar para os pulmões, seria possível manter a vida. Na realidade, conseguiu fazer isso mesmo num gato!

A propósito desta possibilidade de retorno à vida, há na literatura um relato muito interessante, envolvendo uma jumenta, de nome Wouralia e pertencente a um outro Inglês, explorador e estudioso do Curare, de nome Charles Waterton (1783–1865). Brodie reclamou para si ter ressuscitado a referida jumenta, após envenenamento pelo Curare, aplicando respiração artificial, usando foles, mas isto é contestado por Waterton, que se afirmou como o autor desse facto. De qualquer modo, há indicação que a Wouralia viveu muito anos depois disto, na casa de Waterton.

Estas observações começaram a por em causa a capacidade do Curare provocar uma morte rápida e tranquila.


Os trabalhos de Claude Bernard.

Claude Bernard (1813–1878) foi um famoso cientista Francês5, com importantíssimos contributos para a Medicina moderna, como os conceitos de homeostasia, a função glicogénica do fígado, do sistema simpático e do sistema parasimpático e, nos estudos que fez sobre venenos, a ligação do monóxido de carbono à hemoglobina, para além da desmistificação de muitas ideias erradas.

Em trabalho apresentado à Academia Francesa das Ciências, em 1856, mostrou que o veneno Curare não atuava nos nervos, nem nos músculos, mas sim na zona de ligação destes dois sistemas, a placa neuro-muscular.

Estes trabalhos e os do seu discípulo Alfred Vulpian (1826–1887), permitiram concluir o seguinte:

  • O veneno tem de atingir o sistema sanguíneo para actuar.
  • A morte é causada por paragem respiratória, sem convulsões e sem dor.

A ação essencial do veneno ocorre nos nervos motores, enquanto os sensoriais permanecem sem serem afetados.

  • O nervo ciático e os músculos gastrocnémios (gémeos) mantêm a capacidade funcional, após injecção do veneno quando independentemente estimulados por corrente eléctrica.
  • A aplicação directa do veneno no nervo não impede a actividade do músculo, pelo que o sistema nervo-músculo permanece funcional.


Na realidade, foi o discípulo de Claude Bernard Vulpian, quem aventou que a zona da interação entre os nervos e as fibras musculares, seria o local onde o Curare exercia ação. Os conhecimentos sobre anatomofisiologia da junção neuro-muscular — sinapse — e dos neurotransmissores só vieram a verificar-se 100 anos depois, já no século XX, bem como o saber-se que o neuro transmissor relacionado com a acção do Curare era a acetilcolina e que o veneno bloqueava a acção deste mensageiro nos receptores nicotínicos e não nos muscarínicos2, 6.

Como o Curare provocava um estado de placidez, a Medicina pensou que seria útil empregá-lo em patologias que tipicamente provocavam grandes convulsões, como o Tétano e a Raiva.

Logo em 1859 Curare foi administrado a três doentes com tétano e, embora tivesse havido uma grande diminuição das características convulsões, dois deles morreram, por falha respiratória. Mais tarde voltou a ser usado para casos de tétano.

Emprego em doentes com Raiva mostrou não haver diminuição das convulsões, para surpresa dos médicos. Cerca de 100 anos depois percebeu-se porque havia esta disparidade, pois a doença vírica (vírus Lyssavirus) Raiva é uma patologia do sistema nervoso central e não poderia ser afectada por um produto que é um paralisante do sistema nervoso periférico. Por outro lado, o Tétano é provocado por uma toxina produzida pela Bactéria anaeróbica Clostridium tetani, que inibe a libertação de neuro transmissores e afecta nervos motores7.


Curare, Ciência e Leis.

O século XIX foi extremamente importante para a civilização ocidental8, tendo recebido impulsos profundos de século anterior, o último da época do Iluminismo. Nos aspetos socio-políticos recebeu a enorme influência da Revolução Francesa — “Liberté, Egalité, Fraternité” (1789) e nos aspetos tecnológico-científicos e económicos, da chamada Revolução Industrial (1760 e seguintes).

Basta referir que neste tempo se desenvolveram muitos instrumentos e conhecimentos de alto valor, como o relais electríco, telégrafo, o sistema Morse, lâmpadas eléctricas, o estetoscópio, o quinino, a aspirina, clorofórmio, antissépticos, Raios-X, Teoria Celular, germes, higiene, foi feita a primeira cirurgia cardíaca, etc8. Estes enormes avanços criaram condições que levaram ao aumento da população, que na Europa passou para dobro!

Todo este avanço científico e progressos técnicos foram acompanhados por preocupações filosóficas, em continuidade com os grandes pensadores do século XVIII, de enorme influência intelectual, Voltaire, Diderot, Kant, Rosseau, John Locke, Montesquieu, Adam Smith, etc, etc.

É curioso referir que a sociedade ocidental ainda seguia a doutrina de Aristóteles (384 a.C.–322 a.C.) filósofo Grego, cujos contributos mais importantes se situam nos princípios da Ética e da Lógica, mas para quem os Humanos tinham capacidade de raciocínio e os animais não, pelo que teriam uma finalidade meramente utilitária, podendo ser usados como se entendesse10.

Os Romanos praticaram grande barbárie para com os animais nos espetáculos do Circo.

S. Tomás de Aquino (1224–1274) seguiu as ideias de Aristóteles, só acrescentando que os animais não tinham uma alma eterna.

Descartes (1596–1650) e Kant (1724–1804) não se desviaram muitos destas ideias, pois para eles os animais não tinham a capacidade de linguagem, ou não eram capazes de raciocinarem acerca da ética, pelo que tinham apenas valor instrumental.

Porém, começaram a surgir opiniões diferentes. Um marco considerado de enorme importância surgiu com um livro de Jeremy Bentham (1748–1832), escocês, fundamentalmente preocupado com a situação dos trabalhadores das fábricas, mas que escreveu também em relação aos animais2, afirmando que, o importante, não era eles não terem raciocínio, mas sim saber se eles eram capazes de sofrer.

Logo em 1839, um veterinário Inglês, que escreveu vários livros sobre animais, William Youatt (1776–1847) fez importantes afirmações9, dizendo que os animais têm “emoções, consciência, atenção, memória, sagacidade, docilidade, associação de ideias, imaginação, raciocínio, instintos, afeções sociais e as qualidades morais de amizade e lealdade”.

Com Charles Darwin surgiram as relações evolutivas, associando animais e os Humanos numa “árvore evolutiva”, partilhando relações anatómicas e fisiológicas, donde decorria naturalmente que muitos dos animais eram sencientes.

Tudo isto levou a que, em muitas das Sociedades de países europeus, surgissem debates sobre aquilo que era referido genericamente por “Bem-Estar Animal”, com a organização de associações privadas dedicadas a estes assuntos10.

Muita desta controvérsia tinha subjacente a prática que, se generalizara no final do século XVIII e princípio do XIX, da chamada Vivissecção10, ou seja, estudos em animais vivos, para actos de cirurgia e apreciação de reacção a drogas e estímulos. Segundo fontes históricas, a vivisseção em seres humanos foi corrente e abundante na Antiguidade, usando prisioneiros de guerra, ou condenados à morte. Parenteticamente, diga-se que, em certas regiões de Africa, onde uma etnia dominava outra, quase em semi-escravatura, acontecia que, para mostrar a uma rapariga da classe dominante grávida, como se dava a gestação, abriam o ventre a uma escrava que estava também grávida e isto já bem dentro do século XX11.

A fim de diminuir as críticas, muito dos praticantes da vivisseção em animais, sabendo que o Curare criava um estado de tranquilidade nas vítimas, passaram a usar este veneno, para manter os animais tranquilos e imóveis, durante as suas práticas, sem necessidade de serem amarrados.

Contudo, os referidos trabalhos do Francês Claude Bernard, como já indicado, vieram pôr em dúvida a insensibilidade das vítimas do Curare; ele próprio afirmou que “os animais não mostravam sinais de dor, porque não podiam manifestá-la”! Sem grande surpresa, surgiram muitos a contestar esses resultados, nomeadamente conhecidos cientistas, sobretudo em Inglaterra, grandes devotos da vissecação. Os debates levaram mesmo o Parlamento Inglês a criar uma Comissão de estudo da situação, a par com outras organizações privadas que foram surgindo.

Merecem alto louvor os Legisladores Ingleses, que afirmaram que, dado existirem dúvidas sobre a actuação do Curare, só restava proibi-lo, enquanto se aprofundava o conhecimento da sua acção. Assim, foi aprovada uma Lei “Cruelty to Animals Act” (1876) que proibia o seu uso nas experiências com animais, pois a droga não tinha efeito anestésico. Esta Lei ainda está em vigor, com várias adendas10.

O exemplo desta legislação, levou outros países, a também aprovarem legislação controlando o uso do Curare.


O Curare e Interessantes Casos Históricos.

Lloyd George era o Primeiro Ministro da Grã-Bretanha, durante a Primeira Guerra Mundial. Um grupo de cidadãos Ingleses, que era contrário à participação do País nesse conflito, decidiu que, para acabar com envio de soldados para a frente de batalha, isso só seria possível, eliminado o Primeiro Ministro2.

Começaram a elaborar um minucioso plano que, resumidamente, implicava uma espera, feita junto de um campo de golfe, que o PM costumava frequentar e aí, escondidos, os conspiradores usariam uma arma de ar comprimido, para disparar um dardo embebido em Curare! Esta conspiração só não avançou porque o grupo tinha sido infiltrado por agentes dos Serviços Secretos Ingleses! Consequentemente, os conspiradores acabaram presos.

Não pode deixar de se mencionar um grande paralelismo entre esta conspiração e um atentado, este bem-sucedido. Georgi Markov era um escritor e dissidente Búlgaro, exilado em Londres12, onde divulgava as suas ideias, contra o governo do seu País. Em Setembro de 1978, ao dirigir-se para umas escadas de entrada para o Metro, ao percorrer a Ponte de Waterloo, sentiu uma pancada com um guarda-chuva, que o atingiu numa coxa, seguido do pedido de desculpa de um transeunte que, afinal, era um agente da KGB, da URSS. Acabou por morrer no hospital, alguns dias depois. Na autópsia foi encontrada uma pequeníssima esfera, só com dois milímetros de diâmetro e que tinha 3 mínimas cavidades, onde se encontraram resíduos de ricina. A ricina é um dos mais potentes venenos, também tirado de uma planta, o Riccinus comunis, produtor do óleo de rícino. Curiosamente, em paralelismo com a intentona contra Loyd George, aqui foi, também, usada uma arma de ar comprimido, disfarçada de guarda-chuva.

Em relação ao uso do Curare, como meio de assassinar pessoas, há casos muito interessantes. Por exemplo, nos USA, ocorreu um caso, que levou a Tribunal um Médico e que teve grande divulgação na Sociedade, pelos jornais e TV13. Ficou conhecido como “Dr. X’ Killings” e visou um cirurgião de um hospital no Estado de Nova Iorque, sobre quem, em 1966, recaíram suspeitas de ter envenenado vários doentes com Curare, pois ele possuía-o em vários frascos. Não havendo provas conclusivas acabou por ser absolvido. Contudo, 12 anos depois, em 1978, uma denúncia anónima, enviada para o famoso jornal New York Times, implicava novamente o médico em causa, desta vez por cerca de 40 mortes suspeitas! Um jornalista daquele Jornal foi encarregado de realizar uma investigação e o caso foi novamente a tribunal. Foram ouvidas dezenas de testemunhas e de especialistas, corpos foram exumados, dez anos após a sepultura, o jornalista foi preso, por desrespeito ao Tribunal, por não revelar as suas fontes, nem fornecer as suas notas (mais tarde, ele e o Jornal foram indemnizados pelo Estado); no final o Júri considerou o médico inocente, contra a opinião de muitos. O médico acabou por fugir do País. Este incidente é hoje fornecido aos estudantes de Direito, de várias Universidades, como um “case study” em que se analisa a dificuldade da relação “ciência-tribunal”, onde são apresentados erros cometido durante o julgamento e dadas indicação para uma abordagem mais eficaz e adequada, nesta melindrosa relação.

Há também um caso em que o Curare foi usado como o agente de morte e que ocorreu em 1947. Theodore Romzha, Bispo da Igreja Católica Ruteana, foi mandado executar, com aquele veneno, por ordem de Nikita Krushchev, na altura Governador da República Socialista Soviética da Ucrânia, segundo parece, apenas por o Bispo recusar converter-se à Igreja Ortodoxa Russa14.

De referir, ainda, o incidente que ocorreu em 1960, quando o avião espião americano U-2 foi abatido, quando sobrevoava a URSS. O piloto Americano, Gary Powers, da CIA, tinha consigo uma moeda de um dólar de prata, oca, com uma pequena agulha com Curare, que optou por não usar, ou não teve oportunidade de o fazer15.


O século XX, o Curare e os Curarizantes.

Os estudos e experiências feitas por Claude Bernard mostraram que o Curare não produzia anestesia, pois esta é uma situação transitória de inconsciência e o Curare, iria permitir que a vítima tivesse consciência, pois só tinha acção de relaxante muscular. Daí, a já referida Lei Cruelty to Animals Act determinasse que, o Curare, só podia ser usado em animais anestesiados e que tinham de permanecer nesse estado, até à sua morte.

A possibilidade de realizar intervenções em humanos sem lhes provocar dor e sofrimento, era um objetivo muito antigo16, havendo referências históricas ao uso de vários produtos, de origem vegetal, empregues por Sumérios, Assírios, Egípcios, Indianos, Chineses, etc. em que se destaca o uso do Ópio, Álcool e também Canábis, Acónito, Beladona, etc.

Há referencia a uma técnica muito curiosa, que consistia em comprimir fortemente as Artérias Caróticas, provocando um estado de anoxia cerebral e, consequentemente, inconsciência permitindo intervenções rápidas.

De qualquer modo, as intervenções cirúrgicas eram um último recurso e dependiam muito da rapidez com que o Cirurgião conseguia operar. Paracelsus (1525) foi o primeiro a referir as propriedades do Éter Dietílico, mas que só veio a ser usado como anestésico já no século XIX. Foi, também, nesta época, que o Clorofórmio passou a ser usado para anestesia, havendo advogados de um dos produtos, enquanto outros defendiam o outro. Contrariamente à ideia corrente, durante a Guerra Civil Americana (1861–1865) 95% das amputações foram realizadas com anestesia16, preferencialmente com Clorofórmio, que actua mais rapidamente do que o Éter, é muito menos inflamável, exige quantidades menores, é muito mais rápido, pese embora o facto de provocar mais incidentes clínicos, muitas vezes mortais17.

Um caso notório do uso do clorofórmio em obstetrícia foi, com a Rainha Victória, em 1853 para o nascimento do Príncipe Leopoldo e, em 1857, para o nascimento da Princesa Beatriz.

A Cirurgia enfrentava graves limitações para as intervenções no tórax e abdómem, pois ocorriam fortes contrações do diafragma e dos músculos respiratórios, músculos abdominais e dos intestinos, que só podiam ser tolerados com elevadas concentrações do anestésico, propícias a grandes complicações clínicas16.

O Curare tinha mostrado utilidade no tratamento de situações de convulsões e espasmos em doentes com tétano, epilepsia e na terapêutica electroconvulsiva da psiquiatria.

Sendo conhecidos estes efeitos tranquilizantes do Curare, foi essa a escolha lógica para conseguir o necessário relaxamento muscular nos doentes. Há referência à primeira cirurgia em que o Curare foi utilizado, juntamente com anestesia, em 1912 realizada por um cirurgião de Leipzig, ainda que sem resultados conclusivos.

Entretanto, o principio activo do Curare foi identificado em 1935 e designado “tubocuranine” (bis-benzil-isoquinolina); em 1937 foi isolado de pasta de Curare e depois em amostras das plantas ligadas à sua produção e logo a seguir, em 1939, os Laboratórios da Squib & Sons (USA) passaram a comercializa-lo com o nome de “Intocostrin”. Passou a haver a possibilidade de usar doses concretas e adequadas, ultrapassando a variabilidade de resultados obtidos, quando os Médicos usavam o produto original, pois a concentração variava de amostra para amostra e, por vezes, ocorriam situações muito graves16.

O Curare passou a ser correntemente utilizado, em associação com a anestesia, a partir da década de 1940, tendo como grande paladino o anestesista Canadiano Griffth, que também desenvolveu muito a técnica de intubação traqueal, tendo sido homenageado com um selo dos correios do Canadá17.

Houve uma busca constante para melhores anestésicos e de técnicas para a sua aplicação, num longo e profícuo percurso que produziu enormes avanços. Para aplicação do anestésico chegou a recorrer-se a traqueotomia, a injecção intravenosa, até que se desenvolveram aparelhos para intubação oro-traqueal, evoluindo de tal modo que, em 1980, atingiu-se um refinamento capaz de permitir manter um dos pulmões não ventilado, para intervenção.

Mas, como é usual em Ciência, a busca para melhores medicamentes levou a que se fossem produzindo uma série de moléculas, que produziam resultados comparáveis aos do Curare, os chamados ”Curarizantes”, cada vez com menos efeitos secundários, mas demasiado longa para aqui ser tratada. Passaram estes produtos a serem correntes como associados à anestesia, permitindo, assim, usar dozes mais reduzias, com benefícios óbvios1.

Contudo, a Medicina ainda pretende melhores Curarizantes e apresentou mesmo uma série de atributos que pretende que eles possuam, nas suas características clínicas. Curiosamente, outros aspectos não foram esquecidos, pois os dois últimos dessa lista, são: não precisar de refrigeração para ser conservado e ser de baixo custo.

Certamente, os Químicos não deixarão de dar adequada resposta aos requisitos da Medicina. Resta-nos esperar para ver.


Resumindo.

Curare, de Misterioso Veneno das Selvas Amazónicas, capaz de uma morte rápida e serena, a Veneno produzindo morte horrorosamente consciente, a relaxante muscular indispensável em Cirurgia, a inspirador de Curarizantes, foi um longo, profícuo e interessante percurso, de vários séculos, estendendo-se até ao presente, para benefício de todos nós.