As alterações climáticas, impulsionadas pelo aumento exponencial das concentrações atmosféricas de CO2, exigem uma resposta tecnológica urgente e multifacetada. Embora a transição para fontes de energia renováveis seja prioritária, a Captura e Armazenamento de Carbono é reconhecida como uma estratégia indispensável para mitigar as emissões de setores industriais de difícil eletrificação, como as indústrias do cimento, do aço e da cerâmica.


Captura de CO2: diferentes abordagens.

A captura de CO2 não é um processo unitário universal; a viabilidade de cada tecnologia é ditada pela natureza da fonte (ex: gases de combustão de centrais térmicas ou captura direta do ar) e pelas condições termodinâmicas do fluxo, como a pressão parcial e a pureza. Atualmente, os principais métodos de separação1 (FIGURA 1) incluem:

Absorção: o CO2 é retido no volume de um solvente líquido (fenómeno de transferência de massa para a fase líquida), sendo as soluções de aminas o padrão industrial. Apesar de ser o método mais utilizado comercialmente, a regeneração do solvente exige um elevado consumo energético devido ao calor necessário para romper as ligações químicas formadas.

Adsorção: o CO2 fixa-se à superfície de um material sólido poroso através de interações intermoleculares. O processo de separação pode ser efetuado através da variação da pressão ou da temperatura, podendo também resultar da combinação de ambas. É neste campo que a Química Computacional se tornou uma ferramenta disruptiva. Através de simulações à escala atómica, é possível modelar sítios ativos específicos para o CO2, permitindo prever a capacidade de carga e a seletividade do material face a outros componentes, como o nitrogénio (N2).

Separação por Membranas: utilizam-se barreiras físicas seletivas que exploram diferenças de permeabilidade e difusividade. O CO2 atravessa a membrana preferencialmente em relação aos restantes gases do fluxo.

Destilação Criogénica: baseia-se na separação por mudança de fase a temperaturas extremamente baixas. O fluxo gasoso é arrefecido até que o CO2 condense ou sofra sublimação inversa (solidificação), permitindo a sua separação com base nos diferentes pontos de ebulição dos componentes da mistura.


FIGURA 1. Principais métodos de captura de CO2.

Entre estas opções, a adsorção destaca-se pela sua eficiência e versatilidade, sendo particularmente adequada para estudos computacionais, pois permitem compreender o desempenho dos materiais e apoiar o desenvolvimento de novos adsorventes com propriedades melhoradas.


Materiais porosos: “esponjas moleculares”.

Para compreender a eficácia destes materiais, podemos imaginá-los como “esponjas moleculares”. Os materiais porosos possuem cavidades internas (poros) que aumentam drasticamente a sua área superficial. De acordo com a classificação da IUPAC (International Union of Pure and Applied Chemistry), a porosidade é categorizada em três níveis fundamentais, baseados no diâmetro dos poros2 (d):

Microporos (d < 2 nm): são essenciais para a captura de CO2 em baixas pressões (como na captura direta do ar), uma vez que o pequeno tamanho do poro intensifica as forças de interação entre a parede do material e a molécula de gás.

Mesoporos (2 nm ≤ d ≤ 50 nm): funcionam como canais intermédios que facilitam o transporte molecular e permitem a funcionalização da superfície com grupos químicos específicos (como aminas).

Macroporos (d > 50 nm): atuam como “autoestradas” moleculares, permitindo que o fluxo gasoso penetre rapidamente no interior das partículas do material, minimizando as limitações de difusão.


Para contextualizar esta escala, a área interna de apenas um grama de um material altamente poroso pode ser equivalente a vários campos de voleibol. Esta vasta superfície disponível oferece inúmeros “lugares de estacionamento” onde as moléculas de CO2 podem ser retidas.

Atualmente, diversos materiais têm sido propostos para este fim, entre os quais se destacam, as sílicas porosas funcionalizadas com aminas3, carvões4, COFs (Covalent Organic Frameworks)5 e MOFs (Metal-Organic Frameworks)6.

Entre os materiais mais estudados destacam-se os MOFs, estruturas formadas por iões metálicos ligados a moléculas orgânicas (FIGURA 2). A sua grande vantagem é a modularidade, permitindo ajustar propriedades como o tamanho dos poros e a afinidade química, sendo quase como construir estruturas com peças de LEGO® à escala atómica.

Esta classe de materiais recebeu o reconhecimento máximo da comunidade científica com a atribuição do Prémio Nobel de Química de 2025 a Omar Yaghi, Susumu Kitagawa e Richard Robson. O galardão premiou o desenvolvimento desta nova forma de arquitetura molecular (Química Reticular)7, que permite “costurar” blocos de construção moleculares em estruturas extensas com precisão absoluta, abrindo portas para capturar gases com uma eficiência sem precedentes.

Um exemplo clássico de MOF é o MIL-47(V) (FIGURA 2). Através de ferramentas de simulação avançadas, como o software RASPA8, amplamente utilizado em modelos tutoriais para prever a adsorção em microporos, os investigadores conseguem determinar como este material se comporta sob diferentes pressões e temperaturas.


FIGURA 2. Representação estrutural do MOF MIL-47(V) gerada pelo software RASPA 39. A) Detalhe da unidade fundamental evidenciando o centro metálico de Vanádio (V) e o ligante orgânico (ácido tereftálico). B) Projeção da rede cristalina no plano yz, destacando a porosidade em forma de canais. C) Visualização da rede no plano xy.

Como ocorre a adsorção?

A captura ocorre através de dois mecanismos principais (FIGURA 3) que a computação ajuda a distinguir e otimizar:

Fisissorção: o gás interage fracamente com a superfície (forças de Van der Waals). Por norma, permite a fácil regeneração (“limpar”) do material para que possa ser reutilizado, mas a seletividade pode ser baixa.

Quimissorção: o gás forma uma ligação covalente com o material. A ligação é muito forte e seletiva, mas exige mais energia para regenerar o adsorvente (o material).


Dependendo da aplicação, o equilíbrio entre estes dois mecanismos é fundamental para o bom desempenho do material.


FIGURA 3. Comparação entre os processos de adsorção de CO2: Quimissorção vs. Fisissorção.

O que torna um material eficiente?

Para que um material seja adequado à captura de CO2, deve apresentar:

  • Elevada seletividade: captar preferencialmente CO2 em misturas gasosas.
  • Alta capacidade de adsorção: armazenar grandes quantidades de gás.
  • Boa regenerabilidade: libertar o CO2 com baixo consumo energético.
  • Estabilidade química e térmica: resistir à humidade e a contaminantes.


Simulações moleculares: como funcionam?

Nas simulações, os átomos são tratados como partículas que interagem através de forças físicas, como interações eletrostáticas e forças de van der Waals. Estas interações determinam se uma molécula de CO2 será atraída e retida no material.

Um dos métodos mais utilizados é o Monte Carlo no ensemble grande canónico (GCMC). De forma simplificada, este método simula o comportamento de um gás em contacto com um material, permitindo que o número de moléculas varie, tal como acontece na realidade.

Durante a simulação, o sistema testa diferentes possibilidades:

  • Entrada de moléculas no material
  • Saída de moléculas
  • Movimento no interior dos poros


Após muitas repetições, o sistema atinge um equilíbrio que permite prever:

  • Quantas moléculas são adsorvidas
  • Como se distribuem nos poros


A partir destes resultados, obtêm-se curvas chamadas isotérmicas de adsorção, que relacionam a quantidade de gás adsorvido com a pressão.

Assim, a Química Computacional permite-nos realizar uma “dissecação” atómica dos processos de interface, identificando as propriedades termodinâmicas e cinéticas que tornam um material ideal para uma aplicação específica. No desenho de novos adsorventes para o CO2, os quatro fatores acima mencionados são decisivos:

Seletividade: é a capacidade de o material distinguir e capturar preferencialmente o CO2 a partir de misturas gasosas complexas (como os fumos de combustão, ricos em N2 e vapor de água). A simulação molecular permite calcular os potenciais de interação e prever o fator de separação antes de qualquer ensaio experimental.

Capacidade de Adsorção: refere-se à quantidade máxima de gás que o material consegue reter por unidade de massa ou volume (geralmente expressa em mmol/g). Através de métodos como o GCMC, os investigadores conseguem gerar isotermas de adsorção virtuais para determinar este limite.

Regenerabilidade: este fator quantifica a energia necessária para libertar o CO2 e devolver o material ao seu estado original para um novo ciclo. A Química Computacional ajuda a calcular o calor isostérico de adsorção; um valor demasiado alto indica uma ligação excessivamente forte (difícil de romper), enquanto um valor demasiado baixo sugere uma captura ineficiente.

Estabilidade Química e Térmica: avalia se a estrutura do material permanece íntegra na presença de humidade (H2O) ou contaminantes como óxidos de enxofre (SOx) e de nitrogénio (NOx). Simulações de Dinâmica Molecular permitem observar se estes contaminantes provocam o colapso da rede porosa ou se competem pelos mesmos sítios ativos do CO2.


A utilização de supercomputadores permite o rastreio de alto débito (high-throughput screening) de milhares de estruturas virtuais. Este “funil” computacional seleciona apenas os candidatos que otimizam o compromisso entre estes quatro fatores, direcionando a síntese laboratorial para os materiais com maior potencial de sucesso e reduzindo drasticamente o tempo e os custos de investigação.

Sendo assim, o computador pode funcionar como um verdadeiro “laboratório virtual”, onde é possível testar hipóteses, prever propriedades de moléculas ainda não sintetizadas e simular reações químicas sem recorrer de imediato à experimentação física, poupando tempo e recursos, apoiando o planeamento de experiências no laboratório real e aumentando a segurança, tornando-se uma ferramenta cada vez mais importante no ensino, na investigação e na indústria química10.

Para calcular a energia do sistema nas simulações de adsorção utiliza-se um campo de força, que é um conjunto de expressões matemáticas e parâmetros que descrevem como os átomos interagem entre si (FIGURA 4). Como o adsorvente (por exemplo, um MOF) e o adsorvato (CO2) são considerados rígidos, apenas são consideradas as interações não ligantes, isto é, as interações intermoleculares entre o gás e o material. A energia potencial total (Unão lig.) é então descrita pela soma de dois contributos principais: o potencial de Lennard-Jones, que representa as forças de van der Waals (em que εij é a intensidade da atração entre duas partículas, r0,ij é a distância ideal onde essa atração é máxima, rij é a distância real entre elas) e o potencial de Coulomb, que descreve as interações eletrostáticas entre cargas (em que qi/qj são as suas cargas elétricas responsáveis pela atração ou repulsão)11.

Com base neste modelo energético, pode então ser aplicado o método GCMC, que é uma técnica estatística apropriada para sistemas onde o número de moléculas pode variar, como acontece na adsorção de gases. No ensemble grande canónico mantêm-se constantes a temperatura (T), o volume (V) e o potencial químico (μ), permitindo que o número de moléculas do adsorvato no interior do adsorvente varie durante a simulação.


FIGURA 4. Modelo energético das interações não ligantes usadas em simulações de adsorção. A) A energia total resulta da soma do potencial de Lennard-Jones. B) Interações de van der Waals entre o CO2 e a superfície do material, e do potencial eletrostático de Coulomb, responsável pelas interações entre cargas elétricas.

O algoritmo realiza três tipos de tentativas aleatórias: deslocar uma molécula já existente, inserir uma nova molécula ou remover uma molécula presente. Cada tentativa é aceite ou rejeitada com base numa probabilidade (P) derivada da distribuição de Boltzmann, que estabelece que a probabilidade de um estado com energia U é proporcional a \(e^{^{-U}/\left ( k_BT \right )}\), onde \(k_b\) é a constante de Boltzmann12.


Isotérmicas de adsorção, misturas gasosas e seletividade.

A aplicação prática do método GCMC permite converter o modelo energético de interações intermoleculares em dados macroscópicos compreensíveis, como as isotérmicas de adsorção. Através de um elevado número de tentativas aleatórias de inserção, remoção e deslocamento de moléculas (como acima descrito), o sistema atinge o equilíbrio estatístico. Neste ponto, torna-se possível determinar com precisão quantas moléculas de CO2 são adsorvidas e como estas se distribuem geometricamente no interior dos poros do material, permitindo comparar estes resultados obtidos no “laboratório virtual” com curvas experimentais para validar a eficácia do modelo.

Um exemplo clássico deste processo, disponível nos tutoriais do software RASPA, envolve a simulação da estrutura MIL-47. Ao carregar o ficheiro de coordenadas da estrutura e definir condições como a temperatura e pressão parcial do gás, o programa executa milhares de ciclos que ilustram o preenchimento progressivo dos poros (como demonstrado na FIGURA 5), permitindo o cálculo de isotérmicas de adsorção (FIGURA 6 A)).

Além da simples capacidade de adsorção, a simulação é uma ferramenta fundamental no estudo da seletividade, permitindo prever se o material consegue capturar preferencialmente o CO2 quando este se encontra misturado com outros gases, como o N2, metano (CH4) ou H2O.

Na prática, isto permite simular condições reais de chaminés industriais, avaliando, por exemplo, a seletividade CO2/N2 para verificar se o material adsorve preferencialmente o poluente. Estes cálculos, frequentemente realizados através da teoria IAST (FIGURA 6 B)), permitem quantificar a capacidade de adsorção da mistura e a eficiência da separação, com base na maior afinidade eletrostática do CO2 pela superfície do material.


FIGURA 5. Imagem de um momento do processo de adsorção de CO2 na estrutura do material MIL-47.


FIGURA 6. Adsorção de CO2 e N2 em MIL-47. A) Isotérmicas de componentes puros a 300 K. B) Predição da Teoria da Solução Adsorvida Ideal (IAST) a 50 bar para a mistura binária, evidenciando as quantidades adsorvidas e a seletividade CO2/N2 em função da fração molar de N2 (yN2).

Na teoria IAST, a seletividade \(S_{\frac{CO_2}{N_2}}\) avalia a preferência de um material adsorvente pela adsorção de CO2 em relação ao N2.


\(S_{\frac{CO_2}{N_2}}=\frac{\frac{q_{CO_2}}{y_{CO_2}}}{\frac{q_{N_2}}{y_{N_2}}}=\frac{q_{CO_2\times y_{N_2}}}{q_{N_2\times y_{CO_2}}}\)


Nesta expressão, \/q\) representa a quantidade adsorvida de cada gás e \(y\) a sua fração molar na mistura gasosa. Valores de seletividade superiores a 1 indicam maior afinidade do material pelo CO2, sendo que valores mais elevados correspondem a uma separação mais eficiente. Este parâmetro é fundamental em aplicações de captura e separação de carbono, permitindo prever o desempenho de materiais adsorventes em misturas gasosas reais. Estudos reais com estruturas como MOFs demonstram que esta abordagem identifica materiais promissores muito antes da sua síntese laboratorial física, poupando tempo e recursos.


Do computador para o laboratório (e para a sala de aula).

Uma das grandes vantagens da Química Computacional é permitir testar materiais que ainda não foram sintetizados. Através de técnicas de rastreio computacional, é possível analisar milhares de estruturas e selecionar apenas as mais promissoras.

Além disso, ferramentas como o software RASPA3 permitem levar estas simulações para a sala de aula (ver o tutorial prático no Material Suplementar), aproximando os alunos da investigação científica atual e promovendo uma aprendizagem mais interativa.


Conclusão

A Química Computacional permite compreender, à escala atómica, como o CO2 interage com materiais porosos e prever o desempenho de novos adsorventes antes da sua síntese experimental.

Ao funcionar como um “laboratório virtual”, estas ferramentas aceleram o desenvolvimento de tecnologias de captura de carbono, contribuindo para enfrentar um dos maiores desafios do nosso tempo: as alterações climáticas.


Agradecimentos

Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do projeto CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro, UID/50011/2025 e LA/P/0006/2020, financiado pela FCT/MEC (PIDDAC). Recebeu financiamento do European Research Council, no âmbito do programa de investigação e inovação Horizonte Europa da União Europeia (Acordo de Subvenção 865974), e pela FCT/MCTES, I.P., através de fundos nacionais (PIDDAC), cofinanciados pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) da União Europeia, através do código da operação: COMPETE- 2030-FEDER-00776600 do Portugal 2030 (projeto CharM). A FCT é reconhecida por MAOL pelo financiamento de uma posição de Investigador Júnior e Investigador Assistente (CEECIND/ 01158/2021 e 2024.08302.CEECIND).